Virus e Bacterias Europeus Dizimaram os Americanos

É largamente aceito que cerca de 95% da população pré-Colombiana das Américas (estimativa de 20 milhões de indivíduos) foram mortos em razão dos vírus e bactérias trazidos pelos conquistadores europeus.

Sarampo, varíola, caxumba, tifo, febre tifoide e outras doenças fizeram o que a superioridade militar jamais conseguiria. Pelos restritos conhecimentos da época, pareceu estranhíssimo que os nativos morressem enquanto os europeus não eram afetados.

Esse fato histórico demonstra que, embora as epidemias ocasionais houvessem passado, os vírus e bactérias continuaram ativos entre a população. Na ausência de vacinas e até educação e condições sanitárias para prevenir, a razão para a relativa saúde no Velho Mundo foi a imunização natural, em muitos casos com custos altíssimos.

Qualquer comunidade que conseguisse se esquivar a esse processo natural de imunização poderia viver tranquilamente até que, um dia, um único transmissor entrasse e provocasse uma catástrofe.
A estratégia de isolamento, portanto, é inviável no longo prazo, se os agentes contagiosos não puderem ser efetivamente eliminados, sem possibilidade de reentrada.

Por outro lado, a estratégia de imunização somente é possível sob algumas condições:

a. possibilidade de imunização com baixa letalidade. Naturalmente isso ocorre com alguns vírus e bactérias. Artificialmente isso ocorre por vacinação.

b. estabilidade do vírus ou bacteria. Se há mutação, a imunização anterior perde o efeito. Por essa razão há uma campanha anual com nova vacina para o vírus influenza.

As Epidemias, Carrascos da Humanidade

A presente pandemia do COVID19 está sendo um grande (e doloroso) aprendizado para a humanidade. Pelo menos temos uma capacidade científica e logística impossíveis de imaginar ao tempo das epidemias que nos atingiram em tempos antigos e até recentemente. Entre 1333 e 1351 a Peste Negra matou 50 milhões. O Cólera matou milhões de pessoas em ondas diversas no século 19. A Gripe Espanhola, entre 1918 e 1919, matou 20 milhões. O Sarampo matou 6 milhões por ano até 1963.

A Varíola é considerada erradicada do planeta desde 1980 após a imunização em massa. Mas um dos pesadelos da Humanidade é a liberação de alguns vírus guardados em laboratórios do mundo em meio a uma população que já perdeu a imunidade pela segurança da erradicação.

O Sarampo é um eloquente e infeliz caso do relaxamento da imunização por sentimento de falsa segurança. Esse é um caso em que não há solução à vista sem a contínua imunização.

Estratégias de Combate ao COVID19

O presente caso do COVID19 apresenta algumas características especiais:
a. baixa letalidade e grande maioria sem efeitos  significativos
b. alta transmissibilidade
c. grupos de risco (risco de efeitos graves) bem caracterizados (idosos e co-morbidades
cardio-respiratórias e de baixa imunidade)
d. apesar de minoria, os afetados gravemente impõem uma forte carga sobre o sistema
de saúde.

Pela preocupação com a sobrecarga do sistema de saúde, parece unânime a estratégia de buscar evitar um pico súbito de necessidade de atendimento. Por haver um grupo caracterizável de alto risco, parece fazer todo o sentido retardar ao máximo a exposição desse grupo ao vírus.

Igualmente unânime parece ser a promoção de medidas não-farmacológicas de distanciamento social e de assepsia.

Onde tem existido divergência é principalmente na estratégia relativa aos grupos de baixíssimo risco de efeitos graves – menores de 60 anos em perfeita saúde (sem co-morbidades).

Acabo de ver o relato de um brasileiro na Índia (27/3/2020, 16:07) com informações preocupantes sobre os efeitos  colaterais tanto do isolamento radical quanto do pânico da população.

A falta de entendimento e sensibilidade do sistema que sustenta a vida nos seus diversos aspectos fundamentais tem facilitado a defesa de abordagens simplistas, com argumentos demagógicos. Um dos mais frequentes é rotular como descaso para com a vida qualquer consideração da cadeia de abastecimento.

Da parte de autoridades experientes é difícil aceitar como ingenuidade o desconhecimento da importância de  preservar ao máximo possível a cadeia de abastecimento, com raras exceções para produtos claramente supérfluos.

Essenciais à vida atual não são apenas eletricidade, água, gás e internet. Nem apenas alimentos e medicamentos. Nem mesmo ao incluirmos na lista sabonetes, desinfetantes e combustíveis. Duas semanas de interrupção na cadeia de produção e abastecimento de peças de reposição de equipamentos, componentes eletrônicos e outros produtos à primeira vista não essenciais, causariam o caos no país e afetariam os serviços de saúde, eletricidade, água, gás, coleta de lixo, etc..

Há claramente uma ignorância (ou distorção proposital) quanto à criticidade para a preservação de vidas da maior parte das cadeias de produção e abastecimento.

Isolamento Radical ou Seletivo?

Então parece-me que o isolamento radical e amplo somente pode ser considerado como uma medida extrema e emergencial, e sem a possibilidade de manutenção prolongada.

O isolamento seletivo (grupos de risco), no caso do COVID19, tem o fator positivo de atingir pequena parte da população e de poupar os segmentos mais críticos para a manutenção das cadeias de produção e abastecimento.

Além dos grupos de risco, há inúmeras atividades que podem ser exercidas em home-office ou de outras formas minimizando interações físicas. Os envolvidos nessas atividades também devem aderir ao isolamento seletivo.

O fundamental, entretanto, é entender que a finalidade do isolamento, radical ou seletivo, não deve ser impedir a exposição indefinidamente mas retardá-la nos grupos de risco, evitando a sobrecarga no sistema de saúde.

É preciso entender que a ‘normalidade’ somente será re-conquistada na medida em que a maior parte da população seja imunizada pela exposição e processamento do vírus.

Repetindo: o propósito do isolamento, em qualquer grau, não deve ser impedir a exposição mas dosá-lo de forma a compatibilizar com a disponibilidade de atendimento aos casos graves.

A Imunização Natural como Instrumento de Combate

Entendendo que o vírus vai continuar em circulação e que não há perspectiva de suprimi-lo,  a única maneira de conviver razoavelmente com ele é  termos a maior parte da população exposta e imunizada. Isso nos dá a tranquilidade de que essa parte da população já imunizada poderá ficar segura de não sofrer mais com os efeitos do vírus.

Mas, igualmente importante, os indivíduos imunizados atuarão como redutores da taxa de transmissão, permitindo que os casos graves entre os novos infectados caia a um nível atendível pelo sistema de saúde.

Se fosse possível identificar com segurança quem está nos 80% da população que não terá sintomas graves ao se expor, o ideal seria fazer essa exposição exclusivamente desse grupo ‘seguro’ rapidamente e atingir 80% de imunização em algumas semanas.

Infelizmente, por mais que os grupos de risco estejam caracterizados, ninguém se sente confortável em recomendar a exposição de ninguém. Resta, então, aceitar a imunização natural na medida em que seja inevitável. Mas, repetindo, a imunização não é algo a evitar a qualquer custo eternamente – é necessária para vencermos o vírus no final de tudo.

Agravantes

Há outras doenças sazonais que tendem a aumentar antes que vençamos a onda do COVID19. Na medida em que se sobreponham, teremos a sobrecarga sobre o sistema de saúde. Adicionalmente, teremos mais confusão estatística, dificultando a separação entre causas que poderão ser conjuntas.

SRAG Hospitalização 2020 03 27

O gráfico acima, atualizado até as 15:00 de 27/3/2020, mostra que havia 14.204 hospitalizações devidos a Síndrome Respiratória Aguda Grave. Desses, apenas 3,5%, ou 497, foram relacionadas ao COVID19. Sem menosprezar o problema do COVID19, e sem desconhecer que não somos capazes de identificar rapidamente quais são os casos de COVID19, a estatística parece não muito diferente da que ocorre todos os anos sem o COVID19. Em 2019 foram mais de 39.000 hopitalizações até o início de dezembro, com a maior parte acontecendo até o final de maio.

Teremos de acompanhar para ver qual a proporção de aumento devido ao COVID19 neste ano.

Novamente sem menosprezar o problema do COVID19, a falta de objetividade pode causar mortes por tirar o foco de outras causas ainda mais frequentes e letais.

Não deixa de ser irônico que autoridades que batem no peito dizendo se pautar pela ciência e pelos números cheguem a conclusões e ações incompatíveis com os números. Apoiam-se nos números na medida em que confirmam suas convicções ou interesses políticos.

Minhas Conclusões

As diretrizes do Ministério da Saúde têm demonstrado ser adequadas e sensatas. Se bem me lembro, evitar aglomerações, assepsia (lavar mãos, etc.), etiqueta respiratória, isolamento dos idosos, pessoas com co-morbidades e pessoas com sintomas, vacinação contra a gripe.

O Ministério da Saúde pondera que nem sempre manter várias pessoas confinadas numa habitação apertada é a solução. Uma caminhada sem proximidade a outras pessoas pode ser mais saudável ocasionalmente do que o confinamento por semanas a fio. Faz sentido para mim. Mas a mentalidade das autoridades brasileiras é de que o cidadão é insensato e precisa ser tutelado. É um caso de ciclo vicioso – o cidadão é tratado como irresponsável e não se educa para a responsabilidade, confirmando a necessidade de ser tratado como irresponsável. E o ciclo é inquebrantável devido à crença numa maldita caraterística cultural brasileira. Prefiro a abordagem sensata do Ministério da Saúde.

O Ministério da Saúde também tem evitado contraditar instruções locais, enfatizando que há situações diferentes em cada local. Mas tem enfatizado também a necessidade de coordenar as ações e evitar ações restritivas não planejadas cuidadosamente, especialmente quando afetam outros locais.

Já começam a aparecer evidências do pior que o Ministério da Saúde previu – medidas precipitadas colocando governadores e prefeitos numa armadilha com efeitos colaterais e dificuldades para sair.

O Ministério da Saúde também me parece muito mais sensato do que a OMS em termos das experiências com a hidroxicloraquina. Temos a maior experiência mundial no uso desse medicamento e nos seus efeitos colaterais e chega a ser irresponsável atrasar o aprendizado deixando muitas pessoas morrerem por medo desmesurado de tentar.

Por que os que ameaçam o governo federal com a culpa por mortes não responsabilizam a OMS por vários erros cometidos no tratamento dessa pandemia e a usam como arma política contra o governo?

Parece-me  claro que a OMS foi cúmplice da China no atraso e sonegação de informações sobre a doença na China, com prejuízos irreparáveis para outros países. Entre a OMS e o nosso Ministério da Saúde nessa pandemia, tenho mais razões para confiar no nosso.

Mas ainda temos muito a aprender nas próximas semanas e meses.

Que Deus esteja conosco em cada momento.

https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46540-saude-anuncia-orientacoes-para-evitar-a-disseminacao-do-coronavirushttps://www.pbs.org/gunsgermssteel/variables/smallpox.html
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/15/ciencia/1515997924_751783.html
https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/tifo/

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https://super.abril.com.br/saude/as-grandes-epidemias-ao-longo-da-historia/
https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/o-fantasma-da-variola-artigo/

O Pão Nosso de Cada Dia Dai-nos Hoje!

Uma das expressões mais conhecidas e positivamente repetidas, o “pão” expressa o essencial para a sobrevivência e é frequentemente associado com repartir o pão, solidariedade.

A maneira como asseguramos a sobrevivência é cada vez mais dependente do dinheiro para comprar a sobrevivência tanto em termos de comida quanto de água, eletricidade, transporte e todos os outros requisitos da vida moderna.

Mas a simpatia que a o ‘pão’ recebe contrasta com a tremenda carga negativa que  nossa sociedade atribui ao ‘dinheiro’. “O vil metal de cada dia dai-nos hoje” certamente provocaria reações de muita rejeição.

A presente crise desencadeada pelo COVID19 tem suscitado soluções simplistas e comentários indignados relacionados a atividades econômicas, afirmando que deveriam ser drasticamente restritas para o bem da sociedade. Mais que isso atribuindo à ganância a continuidade de muitas atividades.

Não há como discordar sobre a validade de hierarquização das atividades. É vital que os sistemas de transporte, saúde, produtos essenciais, água, eletricidade, comunicação e financeiro precisam ser mantidos a todo custo e, para isso, precisamos que pessoas saiam de casa, trabalhem e tenham contato com outras.
Muitas outras atividades importantes são menos críticas e podem ser reduzidas significativamente ou paralisados por curtos períodos. O sistema escolar e pré-escolar, por exemplo. Um terceiro grupo  é o de atividades plenamente dispensáveis por tempos mais longos, como o sistema de entretenimento que requer a saída de casa.

Neste último incluem-se atividades esportivas, primeiro eliminando o público nos estádios e, em seguida, as atividades em si.

Evidentemente, uma paralisação massiva de atividades logo no início da ameaça de disseminação do vírus deveria resultar no retardamento e achatamento da curva de crescimento, reduzindo muito os afetados, as mortes e a sobrecarga sobre o sistema de saúde. Tudo pela segurança e pelo bem comum, façamos isso. O único prejudicado seria o ganancioso empresário que reduziria o seu lucro fácil de cada dia por uns tempos.

É um pensamento simplista e lamentavelmente equivocado, especialmente após 5 anos de recessão ou desempenho sofrível da economia. Grande parte das empresas e dos indivíduos tem pouca ou nenhuma reserva financeira para sustentar-se com interrupção ou redução de ganhos e os custos continuam, todos os dias. Há salários, alugueis, impostos, contas a pagar.

Os mais prejudicados são os indivíduos que batalham pela manhã o vil metal para pagar o almoço e à tarde para pagar a janta. Pequenos empreendedores, como o cabeleireiro ou o vendedor de cachorro quente, não têm como sobreviver confinados em casa ou vendendo 1/3 do normal por algumas semanas.

Mesmo as atividades ‘supérfluas’, como teatros, cinemas e esportes, têm uma enorme quantidade de dependentes que perderão sustentação após algumas semanas de paralisação.

Na verdade, esses anos de mau desempenho da economia resultaram numa quantidade significativa de doenças e mortes evitáveis. O fato de ser difícil ver e quantificar quantos morreram ou sofreram gravemente diariamente pela economia ruim não deveria enganar as pessoas com acesso a dados e capacidade de raciocinar. E essas pessoas deveriam compartilhar bom senso e não leviandades.

Em algum momento torna-se imperativo impor restrições, isolamentos, quarentenas. Mas é a sua antecipação evidentemente traria um custo maior do que o benefício para a sociedade.

Não há como ter certeza do momento ideal para cada nova medida de restrição mas parece-me que as autoridades brasileiras, a partir do Ministério da Saúde, têm corretamente aprendido com a experiência dos países precedentes dessa pandemia e tomado ações sensatas, com transparência.

Vale cautela para não se deixar levar por comentaristas simplistas, nem pelo lado do menosprezo pelo vírus nem pelo lado das restrições a qualquer custo.

#coronavirus #covid19 #trabalho #economia #sociedade

Reflexões sobre a Gestão do Desempenho em Serviços Públicos

Assisti a um hangout do Insight Jurídico – LawBrain Space em

https://youtu.be/PuSq7RtEARk, comentando sobre o artigo 33 da lei francesa 2022/18 de março de 2019, que proíbe estatísticas em cima das decisões individuais de juízes. Sem entrar no mérito da lei francesa, fiquei assustado com a argumentação apresentada pelos comentaristas.

Afirmam eles ser impossível fazer análises estatísticas sobre comportamentos humanos, pois seria uma tentativa de reduzi-los a simples algoritmos. Direito e ciências sociais precisariam ser equidistantes da matemática e exatas (creio que o comentarista não refletiu sobre o significado de “equidistantes” e quis dizer apenas “distantes”).

Também argumentaram que a performance baseada em quantidade e velocidade é errada porque não considera a qualidade: quantas decisões sofreram recursos? O quantitativo não considera a qualidade e é difícil quantificar apenas por números; a estatística de números não consegue ajudar a melhorar a qualidade do judiciário (ainda estou buscando maneiras de quantificar e fazer estatística sem usar números).

As quantificações não considerariam que a maioria das sentenças é feita por assessores e estagiários e desconsideram o quanto de atenção é dada às partes (portanto, melhor não medir nada…).

Estatísticas de inclinações e desempenho de juízes viciam todo o sistema, levando advogados a evitar ou buscar um determinado magistrado, computando uma probabilidade de decisão num ou noutro sentido.

O meu estupor adveio da percepção do quanto pessoas formadoras de opinião estão atrasadas em matérias de gestão e o quanto isso prejudica toda a sociedade brasileira.

Há 50 anos, era comum nas fábricas que a área de fabricação fosse medida pela quantidade de peças produzidas, sem se importar nem com a qualidade nem com o acêrto da produção. Ao invés de promover bom desempenho, isso causava distorções perversas, como a produção de produtos defeituosos e a produção de produtos mais fáceis e rápidos de produzir mesmo que sem demanda no mercado (a fábrica ganhava os bônus pela quantidade produzida mas os produtos ficavam em estoque por falta de demanda).

Shewhart, Feigenbaum, Deming, Juran, Crosby e Ishikawa, entre outros, promoveram uma verdadeira revolução nas empresas já nas décadas de 50 e 60.  Um dos princípios fundamentais foi o de que não se pode aperfeiçoar o que não se mede e cunhou-se o ditado “diga-me como me mede e lhe direi como me comportarei”. A revolução da qualidade transformou o Japão de fornecedor barato de produtos ruins em símbolo de qualidade a custos baixos. O padrão de relógios deixou de ser a Suíça, o de mecânica a Itália, o de carros e eletrônica os EUA. Isso não aconteceu medindo o desempenho apenas da quantidade produzida e desconsiderando a qualidade. Nossos comentaristas parecem condicionados ao pensamento da década de 40 e, lamentavelmente, representam o estágio mental de grandes segmentos de nossa sociedade.

Para ficar no argumento dos comentaristas, uma medição de desempenho de juízes necessariamente irá considerar o percentual de decisões que sofreram recursos e quantos % desses recursos levaram a uma modificação da decisão original. Elementar, caro Watson, nem deveria ser mencionado sendo tão básico. Diversos outros aspectos deveriam ser medidos para suportar uma análise apropriada e orientar quanto a aperfeiçoamentos. O que se faz numa empresa quando se verifica que um funcionário tem uma grande incidência de retrabalho? Providencia-se treinamento naquilo que tem causado o retrabalho, até a conclusão da impossibilidade de correção.

O argumento da previsibilidade das decisões de juízes é semelhante aos argumentos contra os VARs no futebol: “tirou toda a graça do jogo”, “a imprevisibilidade dos juízes é a essência do esporte”. Um processo judicial seria como uma loteria ou um jogo esportivo.

Entretanto, no Direito, o que a sociedade busca é exatamente a previsibilidade e consistência, levando à confiança quanto a que comportamentos serão aceitos e que comportamentos serão punidos. A imprevisibilidade de consequências jurídicas no momento em que um cidadão ou organização toma uma decisão no dia a dia é perversa e injusta. Essa imprevisibilidade causa insegurança e enormes prejuízos. Decisões e atividades válidas deixam de ser exercidas pelo medo e decisões e atividades indesejadas acontecem pele esperança da impunidade.

Os remédios contra essa imprevisibilidade são a melhor qualidade das leis e a consistência das decisões judiciais. A lei deve ser impessoal e aplicada igualmente a qualquer situação futura em condições equivalentes. A inclinação de um indivíduo juiz é um fator de insegurança e perda de qualidade de todo o sistema jurídico.

Os comentaristas erradamente querem ‘matar o mensageiro’ por desgostarem da mensagem. Medições não causam vícios no sistema, apenas os expõem. A solução não deve ser quebrar o termômetro mas entender e eliminar as causas da febre.

Sem estatísticas públicas e confiáveis, advogados com maior experiência adequam seus procedimentos às características do juiz para quem a causa é distribuída. Quem puder pagar esses advogados terá mais chance, quem pagar advogado menos sábio na navegação no sistema, terá menos chance.

Nossa Justiça Trabalhista tem sido um (mau) exemplo de vício, forçando a lei em favor dos (vulneráveis) trabalhadores contra os (ricos) empregadores. Medições apropriadas teriam ajudado a documentar o vício e forçado ações corretivas. A falta de gestão do desempenho no nosso sistema de ensino tem nos condenado às piores posições na concorrência internacional e a discussões estéreis sobre o que fazer para corrigir rumos.

Se o sistema é viciado, a solução não deve ser evitar medições, mas aperfeiçoá-las para corrigir o sistema.

A posição dos comentaristas é ainda mais lamentável por refletir a ojeriza de segmentos formadores de opinião contra a gestão do desempenho em tudo o que se relacione com serviços públicos e sociais. São avessos a qualquer tipo de controle que possa apontar erros e a necessidade de aperfeiçoamento. Confundem gestão do desempenho com perda de uma sagrada autonomia funcional que, na prática, jamais tem sido usada para entregar serviços de qualidade à sociedade, apenas para acomodar, acobertar mau desempenho e desmotivar os bem intencionados.

A conversa estica-se para considerações sobre educação, analfabetismo, pobreza e outros aspectos, com mais imprecisão e condicionamentos. Sintomático julgar pensamentos com os quais não concordam condenados como frutos de preconceito ao mesmo tempo em que revelam incapacidade de questionar os seus próprios preconceitos. Preconceito é o do outro…

A Revolução da Qualidade foi a base fundamental para a Revolução do Combate ao Desperdício (Lean). Juntas, viabilizaram produtos de qualidade a preços baixos. Produtos e serviços que há 50 anos não entrariam nem mesmo em sonhos de classes de menor poder aquisitivo são hoje acessíveis à maioria da população. A escala motivou e financiou desenvolvimentos tecnológicos que alavancaram a qualidade e a redução de preços, aumentando a acessibilidade. Sem a qualidade e a eliminação do desperdício, a revolução tecnológica não aconteceria.

Houve uma expansão dos empregos e da qualidade dos empregos. Para viabilizar o emprego de mão de obra desqualificada, as empresas tornaram-se provedoras de educação e treinamento. Comparo o nível técnico do serviço prestado e o tipo de atendimento de um ‘faz-tudo’ que trabalhou numa fábrica estruturada e se beneficiou de aprendizado no trabalho, com concorrentes sem esse benefício. É brutal a diferença.

No serviço público, a ojeriza à gestão do desempenho levou à evolução inversa, com poucas exceções. Formamos uma casta imune a medições e consequências.

Considerando que os comentaristas são parte de nossa elite intelectual e têm um considerável poder como formadores de opinião, preocupa-me não apenas que estejamos ainda na década de 40 em setores importantes de nossa sociedade, mas que ainda haja quem trabalhe contra a evolução que beneficiou a sociedade nos outros setores.

Os Poderes da República

Temos sido condicionados a uma visão distorcida das responsabilidades dos três poderes da República, por ser o nosso sistema Presidencialista.

Corrijo! Ao contrário do que os defensores do Parlamentarismo incorretamente afirmam, distorções e conflitos altamente prejudiciais à sociedade não são característica do Presidencialismo e o equívoco de responsabilizar o Executivo ocorre igualmente nos dois sistemas. Basta ver o mau comportamento do Parlamento do Reino Unido e a culpada unânime:  a primeira ministra.

A situação extremamente frustrante que vivemos com a Reforma da Previdência não é única mas é bastante representativa do que ocorre generalizadamente com os nossos poderes.

Comecemos pelo Legislativo. Constitucionalmente, é responsabilidade do Congresso legislar…  mediante elaboração de emendas constitucionais, de leis complementares e ordinárias, e de outros atos normativos com força de lei.

É ainda responsabilidade do Congresso a fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da administração direta e indireta.

No caso da Previdência, tem sido notório desde pelo menos 25 anos atrás, que o atual modelo é insustentável e injusto. É responsabilidade primária do Congresso identificar problemas estruturais gravíssimos como o da Previdência, estudar o problema profundamente, investigar e analisar ainda mais profundamente soluções alternativas e elaborar mudanças na legislação para resolver o problema e implantar a solução mais adequada.

O que o Congresso fez, ao longo dos últimos 25 anos? Pior do que nada, tem sido uma fonte de modificações destinadas a atender interesses setoriais em detrimento dos interesses nacionais no assunto.

Para auxiliá-los na importantíssima responsabilidade da qual não se desincumbem, os deputados contam – cada um – com até 25 assessores, custando até R$ 111.675,59 (salvo engano) por mes. Esse exército de ajudantes deveria permitir a cada deputado um profundo trabalho de investigação, análise e proposição. O que notamos, entretanto, é uma generalizada ignorância sobre o assunto, sendo exceções apenas a busca de argumentos pontuais para combater alguma proposta contrária aos seus interesses. Isto é, todo o dinheiro e recursos providos pela sociedade é usado de forma destrutiva e muito raramente na elaboração de propostas de alta qualidade para resolver os problemas nacionais.

No Senado a situação é semelhante. Conforme o acúmulo de funções em comissões, um senador pode ter até 88 assessores, com igual ineficiência no desempenho de suas atribuições.

É claro, em nada ajuda a extrema leseira que caracteriza nosso Congresso. Tipicamente, trabalha não mais do que 3 a 4 dias por semana, tem longos recessos, feriadões, São João, etc., etc.. Nos períodos pré-eleitorais, acham justificável deixar de trabalhar naquilo para o que são pagos e canalizam seu tempo para a re-eleição. É a política como um fim em si mesma e não como servidora da sociedade.

Além de não terem contribuído com nenhum projeto realmente abrangente e efetivo para resolver o problema da Previdência, os deputados e senadores também não exercem suas responsabilidades de fiscalização. Dessa forma têm permitido (se não se acumpliciado diretamente) com a corrupção que agrava o problema básico estrutural.

Como a bomba sempre estoura na mão do Executivo, todos os últimos presidentes desenvolveram propostas de modificação da Previdência visando solucionar estruturalmente ou, pelo menos, empurrar o problema mais para a frente. FHC, Lula, Dilma, Temer e, agora, Bolsonaro, todos foram forçados a fazer o trabalho do Congresso e propor soluções.

O que fez o Congresso em TODAS essas ocasiões? Consistentemente fez-se de difícil e buscou vender – literalmente – a sua cooperação. Mais do que isso, buscou sabotar os pontos mais importantes – e impopulares – e culpar SEMPRE o Executivo pelos insucessos.

Neste governo, especificamente, tivemos a proposição do projeto mais completo e cuidadoso que jamais vi, realmente de reforma e não de curativo, da Previdência. Pela primeira vez enfrentando de peito aberto os problemas mais centrais: o modelo de Repartição, injusto e insustentável, a mistura de solidariedade com aposentadoria, a desigualdade de contribuições e benefícios e a sustentabilidade atuarial. A uma proposta cuidadosa e completa, seguiu-se um esforço notável de explicação e abertura para discussão com deputados e senadores.

Com tudo isso, como tem se comportado o Congresso? Recusando-se a desempenhar suas responsabilidades e culpando SEMPRE o Executivo por não formar a maioria. Como se não coubesse a cada deputado e senador estudar, questionar e formar a sua convicção sobre o melhor para o país e, sim, ao Presidente e seus ministros vencer a resistência preconcebida de cada deputado e senador. O argumento mais cínico e recente defende que a Previdência precisa de um projeto com “o DNA da Câmara”. Ora, pelo que se tem visto, o DNA da Câmara implica em omissão, setorialismo e irresponsabilidade. 

Como se comporta a mídia e, ao final, a parte mais vocal da população? Culpa SEMPRE o Presidente pelo insucesso.

O terceiro poder, o Judiciário, tem a atribuição de aplicar a norma jurídica aos casos concretos, resolvendo conflitos individuais e sociais, visando a pacificação social. Em outras palavras, tem a responsabilidade de garantir a Justiça, definida nas leis do país.

Ressalvada a situação em que uma lei seja inadequada, da efetividade do Judiciário depende a certeza da população de que quem respeita a lei terá segurança e justiça e quem não a respeita será impedido de continuar delinquindo e será punido pelos crimes que houver cometido.
A previsibilidade segura quanto às consequências é fundamental para que não apenas vivamos com confiança, mas para que façamos planos e investimentos. Não apenas nós como cidadãos individuais mas empresas e outras entidades, em todas as esferas: econômica, política e social.

O Judiciário tem falhado clamorosamente em suas responsabilidades e é causa direta do sentimento de insegurança, injustiça e desconfiança reinante em nossa sociedade. Isso impede investimentos mas, pior ainda, perverte a ética dominante, instaurando princípios de afirmação do proveito próprio e da falta de escrúpulos.

Ficando no caso da Previdência, a inefetividade do Judiciário tem sido no mínimo um incentivo às fraudes. A inefetividade não é inevitável no processo, é construída por um acúmulo de maus comportamentos desse poder. Entre esses…

* diferentemente do cidadão comum e, mesmo, dos servidores, ministros e presidente do Executivo, os membros do Judiciário têm longos meses de férias e frequentes feriadões, como se a Justiça não fosse algo necessário continuamente. Alegam estresse profissional como se não houvesse inúmeras outras profissões e funções ainda mais estressantes, mas sem as regalias do corporativismo judiciário.

* custam caro à sociedade e não se submetem a restrições orçamentárias. Dedicam esses recursos incompatíveis com a sociedade brasileira para prédios suntuosos, salários acima do teto legal, benefícios abusivos e despesas operacionais inaceitáveis.

* pelo pretexto da proteção à independência do juiz, chegam ao cúmulo de afastar ou aposentar com todos os direitos juízes comprovadamente corruptos. No Judiciário, o crime, mesmo depois de condenado, compensa.

* em conluio com más legislações, permitem a procrastinação indefinida de decisões finais, causando a prescrição ou, pelo menos, o adiamento excessivo da punição. Tornam a impunidade total ou parcial a expectativa normal.

* permitem que a impunidade seja pesadamente influenciada pelas posses do criminoso.

* agravam todo esse quadro no que se refere a políticos sujeitos a foro especial. A prescrição e a não-condenação são a regra absoluta entre os casos dependentes do STF.

* o ativismo Judiciário tem sido um fator importante na incerteza quanto a mudanças relevantes na Previdência.

* o “garantismo” é usado para exacerbar a impunidade, numa legislação que permite recursos infinitos, mesmo claramente protelatórios.

Tudo o que expusemos em relação à Previdência, aplica-se a todas as outras mudanças que têm sido propostas por Executivos passados e pelo atual.

Medidas de combate à corrupção têm sido propostas pela população, por entidades da sociedade e pelo ministro Sérgio Moro. Consistentemente, o Congresso tem desconsiderado, retalhado, distorcido e desqualificado TODOS os esforços. É inevitável a percepção da sabotagem como estratégia de auto-preservação contra eventuais punições.

Apesar de todos os recursos à disposição, que deveriam permitir analisar e votar diversos projetos de leis simultaneamente, a desculpa tem sido que “não dá para processar o pacote de Moro em paralelo com o da Previdência”.

Desgosta-me frequentemente ver elementos do Executivo e do entorno do Presidente provocarem ruídos absolutamente desnecessários e gerenciarem mal e porcamente relacionamentos com as prima-donas no Congresso. Merecem a minha desaprovação.

Entretanto, qualquer um que se dedique honestamente a acompanhar o trabalho sendo feito na maioria dos ministérios de Bolsonaro chegará à conclusão de que esse é um dos governos mais ativos e produtivos das últimas décadas.

E, no que tange à Previdência, é a melhor proposta jamais apresentada não como um curativo provisório mas como um enfrentamento corajoso e sustentável.

Mas a mídia, os políticos e a maioria da sociedade manipulada não cobra nem do principal culpado – o Legislativo – nem do Judiciário o cumprimento de suas obrigações.

Prefere acomodar-se no de sempre, culpando o Presidente pelos resultados dos maus comportamentos dos outros poderes.

Isso é algo que em precisamos desesperadamente evoluir se queremos um país realmente diferente, para melhor!

@rodrigomaia @davidalcolumbre @augustonunes @globonews @badnewstv @jovempan @joycehasselman @jairmessiasbolsonaro @janainapaschoal @carlazambelli

 

 

O Paradoxo Leigo

Com especialistas incapazes de propor soluções consensuais, aumenta a responsabilidade dos leigos por decidir os rumos da sociedade.

André Lara Resende afirma que governos não estão sujeitos ao princípio de não gastarem mais do que ganham; afinal, podem emitir moeda. Paulo Guedes afirma o contrário. Ambos com grande embasamento técnico. Afinal, têm dedicado décadas à análise da economia e da gestão pública. Mesmo sendo economista e interessado no assunto, perto desses especialistas estou mais para leigo. Tenho a convicção de que  a tese de Lara Resende é nociva e que Paulo Guedes está mais próximo da abordagem correta, porém não conseguiria sustentar uma discussão com nenhum dos dois. Ambos têm munição suficiente para dar xeque mate num não-especialista e levar a um impasse um opositor fundamentado.

O que não significa estarem certos, apenas que há uma desproporção gigantesca de informação entre os especialistas e cidadãos comuns.

O paradoxo é que eu e milhões de brasileiros, em muitos assuntos ainda mais leigos do que eu, somos os responsáveis por decidir entre eleger um Haddad, um Ciro ou um Bolsonaro (ou Amoedo), com as correspondentes implicações de políticas fiscal e monetária.

Há alguns anos meu orto-neurologista se convenceu de que eu não tinha alternativa  – tinha de grampear 3 vértebras cervicais.  Uma segunda opinião foi contrária – deveria tentar a fisioterapia e reeducação postural. Sou curioso e talvez possa ser considerado um leigo quase esclarecido. Assim mesmo, anos-luz de distância desses especialistas. A minha leiguice não muda o fato de que a decisão sobre as minhas preciosas vértebras coube e continua cabendo a mim e somente a mim. Mesmo que eu delegue a decisão a um médico, a decisão raiz, a de a quem delegar, continua sendo exclusivamente minha.

O paradoxo é que, quem mais sabe, usa o seu saber para destruir o argumento do outro especialista, impedindo que um consenso bem fundamentado seja apresentado aos leigos. E os que menos sabem, os leigos, são os que afinal têm de fazer as escolhas, contra toda a desinformação e confusão causada pelos especialistas.

Grande parte dos cidadãos tem optado pela omissão, que os poupa de se informar, analisar e decidir. Não os poupa das consequências das decisões que serão tomadas mas os faz sentir menos culpados. “Não tenho nada a ver com isso, não votei nas últimas eleições”.  Na verdade, duplamente culpados – pela decisão que obrigatoriamente co-onestaram se omitindo e pela recusa em assumir sua responsabilidade na democracia. Bom, ainda vão me dar uma preleção sobre o quanto não temos uma verdadeira democracia…

Outra parte escolhe um lado com base em aparentes benefícios imediatos e setoriais. Bolsonaro e tantos outros deputados foram eleitos por  décadas defendendo posições contrárias à sociedade mas suficientes para ganhar o apoio de um segmento. Hoje Bolsonaro vive a esquizofrenia de ter de apoiar posições de interesse mais amplo que contrariam seus segmentos históricos.
Os demais deputados setorialistas continuam sua missão de luta setorial às custas da sociedade.

Não são exceção, são a regra, pela qual políticos e líderes fomentam a incapacidade de cada segmento enxergar o todo e o longo prazo, para se aproveitar eleitoralmente dessa incapacidade. A mesma condição se observa no sindicalismo, com líderes vivendo às custas do conflito, até que os empreendedores e empresas desistam e busquem outros ambientes – caso da Ford Caminhões.

Esses políticos e líderes se tornam especialistas no engodo mas a responsabilidade, ao final, continua a ser dos leigos que se sentem felizes em serem enganados e os sustentam e elegem.

Pouquíssimos são os que, mesmo sabendo da impossibilidade de se tornarem especialistas em tudo, se empenham em aprender um mínimo para evitar as enganações mais evidentes.

Até algum tempo atrás, acreditávamos que esse mal era fruto da nossa inferior evolução como sociedade. Olhávamos com inveja para nossos hermanos ao sul, com escolaridade e “conscientização política” muito superior. Nas últimas décadas, vimos as multidões arrastadas para as praças para ouvir intermináveis discursos de Fidel, observamos o mal que o peronismo tem feito e atônitos lemos sobre a perspectiva do retorno de Kirschner ao poder; aí, fico feliz pela nossa inconsciência política…

Mas, claro, ainda estamos na América Latina, que não é uma referência mundial. Então pensamos na sabedoria leiga incapaz de tomar uma decisão esclarecida e consequente sobre o Brexit… e perdemos a esperança de que uma sociedade evoluída estaria menos vulnerável à enganação populista sobre os leigos. Aliás, o caso do Reino Unido também reforça o papel irresponsável de um terço de omissos.

Olhando Itália, Espanha e outros países, não ficamos mais otimistas…

Uma andorinha não faz verão mas, numa sociedade cada vez mais tendente à omissão, cada leigo que se propõe a um mínimo de busca de informação e reflexão tem a sua influência aumentada sobre os rumos da sociedade.

Quanto menos cidadãos se dispõem a votar e a votar com uma boa reflexão, mais valor tem o meu humilde voto singular.

Simultaneamente, tenho uma enorme oportunidade de fazer chegar minha opinião e questionamentos aos políticos e líderes, através das redes sociais.

Uma importante decisão para cada um de nós sobre o papel que, como leigos, devemos desempenhar na sociedade.

Amor e Paixão

Não é raro confundirmos paixão com amor. A confusão aumenta quando os dois andam de mãos dadas por algum tempo. Mas são coisas bem distintas.

Paixão costuma ser muito seletiva no seu alvo e não tem dificuldade em conviver com sentimentos bem negativos associados a outras coisas, conceitos ou pessoas. Muitas vezes é a própria paixão por um que gera o desgosto por outro. Raiva e até ódio não raro se alimentam de paixão.

Assim é que pessoas e grupos loucos de paixão por um deus enchem-se de ódio pelos que ousam não dobrar os joelhos ao mesmo. Ou até mesmo contra quem adora o mesmo deus mas não “da forma como deveria”.

Também há os que são apaixonados pelo planeta mas parecem odiar os humanos. Ou os que têm paixão e movem mundos e fundos por animais mas nas pessoas somente vêm defeitos.

Há quem diga amar o futebol mas, por paixão a um time, busca humilhar o torcedor do outro. E há quem jure amar o país mas, por paixão a um político ou partido, semeia a discórdia e o ‘nós contra eles’.

Não há como esquecer dos que, pela paixão pelo bem da sociedade, escolhem uma ideologia. Ato seguinte, declaram guerra contra qualquer um que pense diferente. Vociferam sua devoção à tolerância, à democracia e ao Estado de Direito… mas praticam total intolerância contra qualquer divergência, buscam a imposição autoritária de sua ‘ordem social’ e não têm qualquer escrúpulo em torcer leis e instituições para servir às suas convicções e interesses.

Ironicamente, todos professam amor incondicional a algum deus, a uma causa, ao planeta, à vida, a democracia, ao bem da Humanidade.

Entretanto, diferentemente da paixão que permite e até se compraz na raiva e no ódio aos divergentes, o amor verdadeiro enche a mente e o coração e não aceita a convivência com sentimentos negativos. Não significa renunciar à justiça, que infelizmente implica muitas vezes em punição. Mas, quando aceita a necessidade de alguém ser punido, nisso não se alegra.

Há quem fere e mata por paixão mas nunca por amor.

Vivemos em nossa sociedade tempos de despertar de paixões. Infelizmente, tempos de pouco amor.

Em sua origem, a Páscoa significou o livramento de um povo mas o sofrimento de outro, seja qual for a justificação havida. Entretanto, modernamente, significa um amor universal, amplo, geral e irrestrito. Possamos todos celebrar esta última, encher nossas mentes e corações de amor, e conseguir que esse amor controle e dirija nossas paixões.

#pascoa #amor #sociedade #politica #paixao #justiça

“Está sob controle” Min. Torquato Jardim – Por que não se calam?

“Está sob controle” Min. Torquato Jardim – Por que não se calam?

A declaração do ministro há pouco sobre a situação em Aparecida de Goiânia incluiu um infeliz “está sob controle”. Será o ministro destituído de senso ou considera que somos todos imbecis? Como pode estar sob controle uma situação caracterizada por fuga em massa de presos, licença para permanecerem foragidos por incapacidade de recebe-los de volta e 3 rebeliões sucessivas em apenas alguns dias? “Não há indício de conexão com a situação em outros estados”. E precisa haver indício? Não é suficiente para um ministro da Justiça, responsável pela coordenação nacional, ver a calamidade aberta em vários estados e saber do potencial de ocorrências iguais em muitos outros? A quem quer enganar?

A declaração de Torquato apenas aumenta a longa relação em que autoridades públicas insultam a sociedade que os instituiu (ou que não foi capaz de impedir que se tornassem autoridades).

Outro exemplo marcante foi a declaração há vários meses feita pelo ministro Meireles, questionado sobre o aumento concedido aos servidores: “não será um problema porque já está no orçamento”. Um orçamento que já aceitava um rombo de 139 bilhões! Em situações desse tipo, a obrigação do ministro da Fazenda seria lutar com unhas e dentes para impedir qualquer despesa evitável. Ao emprestar a sua credibilidade como administrador e economista a uma despesa não apenas evitável mas de efeito permanente e cumulativo, prejudicando as contas de todos os anos futuros, Meireles deixou estupefatos todos os que têm um mínimo de amor pelo país e dois neurônios funcionando.

Rodrigo Maia, insatisfeito com a dificuldade de emplacar os dois pontos mínimos para moralização da nossa Previdência – idade mínima e corte de privilégios de servidores – levanta a bola absolutamente inoportuna de derrubar a restrição ao endividamento para pagamento de despesas correntes. Como pode interessar a um presidente da Câmara dos Deputados aprofundar o caos das contas públicas da Nação?

Por qual razão inalcançável ao cidadão comum, autoridades notadamente inteligentes cometem esses crimes? Por que, simplesmente, sabiamente, antes não se calam?

“Polícia Portuguesa Mata por Engano”

A manchete é incorreta, tendenciosa e reflete a preferência absoluta da imprensa contra a #polícia. Parece ser uma questão ideológica e não apenas uma birra contra a polícia brasileira. Nada apaga a tristeza por uma morte desnecessária, especialmente de alguém inocente. Meus sentimentos de profundo pesar e solidariedade para com os que queriam bem à Ivanice. Entretanto, por que não a manchete “Português desobedece à Polícia e brasileira é morta”?

Em ambos os casos, quem se informar melhor vai poder fazer um julgamento mais correto do que aconteceu. Mas, pela escolha feita, a imprensa escolheu marcar o público com uma primeira impressão inapagável: a de que a brasileira morreu por um engano, um descuido, uma incompetência da polícia portuguesa.

Estranho isso pois, como cidadão, eu considero totalmente sensato que a Polícia ordene a parada de veículos suspeitos para averiguação. Quando eu passo por uma verificação desse tipo, abaixo todos os vidros e, se for à noite, acendo a luz interna. Acredito que, na medida em que eu ajudo os policiais a fazerem o seu trabalho, estou contribuindo para uma sociedade melhor. Quantos concidadãos (excluídos os bandidos) iriam preferir que a Polícia não pudesse parar nenhum veículo para investigar?

Não sou santo e entendo bem o desespero de enfrentar a possibilidade de uma multa, apreensão do carro e outras consequências, quando existe alguma irregularidade. Já passei por isso. Mas nada justifica a atitude de alguém tentar evadir-se e desobedecer uma ordem policial. Fez besteira, assuma o risco das consequências, não piore as coisas.

Lamento demais as mortes, sejam em Portugal, Brasil ou qualquer outro lugar, de alguém tentando evadir-se da Polícia. Mas a alternativa de deixar a critério de cada um obedecer ou não me parece totalmente inaceitável. O policial que está ali é mais do que a Polícia, representa a #sociedade, defendendo a ordem definida pela sociedade.

Se descobrir-se posteriormente que a polícia portuguesa atirou sem ter dado a chance ao motorista de parar o carro, com certeza considerarei o caso um homicídio pelo qual a polícia portuguesa deverá responder. Mas ordenar a parada de um carro que considerou suspeito para investigar não me parece rotulável como engano. E classificar o motorista como altamente suspeito se comprovada a desobediência, tampouco me parece um engano. O que deveriam fazer? Anotar a placa e enviar uma cartinha pedindo que o dono se apresentasse para explicações? Encetar uma perseguição que poderia terminar no atropelamento e morte de outros? O comportamento suspeito tem de ser parado ali mesmo.

Se confirmada a versão da polícia, minha descrição do caso será: “motorista desobedece à polícia e assume o risco de morte para si e sua acompanhante”. Isso é semelhante aos casos de motoristas embriagados que causam mortes em acidentes de trânsito – homicídio com dolo eventual, quando se assume a possibilidade de matar. Não vejo por que adotar uma versão mais suave no caso do português.

No Brasil, jamais a imprensa noticia: “bandidos tentam impedir a ação da Polícia e morador é morto”.  Ao contrário, dizem “Polícia invade o morro e morador é morto”. Não se pode nem mesmo dizer que a diferença é sutil – ao contrário, é muito evidente e o efeito é notável. Bombardeada com a versão de que foi a iniciativa da polícia que causou as tragédias, dezenas de vezes por semana, a população automaticamente relaciona Polícia com desrespeito ao cidadão e praticamente esquece que a culpa essencial é do criminoso.

Mas a birra da imprensa parece estender-se à própria ideia de autoridade. “Se hay gobierno, soy contra”. Qualquer regramento de vestimenta, comportamento, linguagem, valores sociais, qualquer regramento, seja qual for, deve ser combatido. Parece que a profissão de fé no anarquismo é obrigatória no juramento do jornalista.

Há de se reconhecer que as autoridades esforçam-se ao máximo para dar razão a essa distorção negativa, anti-autoridade, da imprensa brasileira. Mas seria mais útil à sociedade se a denúncia das mazelas das autoridades brasileiras pela imprensa viesse combinada com o chamamento à responsabilidade de cada cidadão por respeitar as leis e os mecanismos de imposição das mesmas.

Prestigiar a Polícia e as suas ações necessárias não significa omitir-se ante os seus erros. Mas sistematicamente desprestigiar a Polícia e atribuir-lhe liminarmente a responsabilidade pelos problemas tem significado incentivar o comportamento criminoso.

O resultado está aí para sofrermos.

Curators or Recipe Gurus?

I think it was in a Ted Talk (one of the best sources for diverse ideas) that someone called my attention to the concept of #curation applied to normal and professional life.

A long time ago, we could choose a narrow segment of human knowledge, learn about it and live somewhat comfortably from that learning. Doctors, for example, might not need to learn so much new over 50 years of practice after the diploma. At least they would not depend so much on this to avoid the sting of being outdated. Those more curious would sign some specialized publications and go to some conference every many years. Those would stand out as especially enlightened. I was lucky to have one of these, Dr. José de Carvalho Florence, work on the recovery of my fractured elbow in 1954 in a small town into the country.

At that time there were reliable recipes defining what to do and how to do in every situation of life. Those who learned and became skilled in the application of those recipes achieved sustainable success, perhaps for the lifetime. My elbow would have gone unusable according to the recipes of the time, but that would be considered normal, so I would have to be happy with the result and the ‘recipe-professional’ praised for having me survive.

The creators or disseminators of those recipes were revered as gurus. Recipe gurus.   With the spread of the internet, we discovered that the universe of knowledge and ideas was infinitely larger than we could imagine. And then the internet imposed an exponential acceleration to that which was already huge.   On one hand, we became aware of how much we could not follow and know. On the other hand, those around us  became more critical and demanding because they could imagine how much we do not know.

Trying to access everything that might be of interest even to a narrow area of ​​expertise has become a challenge with no chance of success.   Many partially resolve this difficulty by reaffirming their choice of closed recipes. They choose a recipe guru and become priests of that idea or methodology. And they get good results, under the conditions set as standard. For those who only have a hammer, everything then becomes a nail.

Another group, probably a minority, does not believe in a standard recipe and prefers to combine concepts and techniques as it can best fit each situation. This requires a wider breadth of knowledge and competence to ‘engineer’ solutions. No wonder most prefer the standard recipes.

Nowadays, constant updating with a wide variety of innovations is important, but for those who are not restricted to a standard recipe, it has become an impossible mission. And here comes the concept of curating information (or content). People, entities and algorithms that dedicate full time and with specialized resources to collect information, analyze and select what matters for a certain profile of ‘clients’ of the curatorship.

More and more curators use artificial intelligence mechanisms, learning from our preferences.   Once we find one or a few curators, we save our time on this mining, analysis and selection, and we can use time to learn and decide what and how to apply to our life. I found interesting the article at http://priscilastuani.com.br/curadoria-de-conteudo-7-tools-to- find-contents/ but a brief search will return many other contributions. It is worth investigating!

I like to associate myself more with curators than with recipe gurus.   One of my earliest curators was Monteiro Lobato, back in the late 1950s. Universalist, Lobato did an excellent curation of selections from History, Geography, Philosophy, Mathematics, Grammar, Geology, Astronomy … and incorporated them into stories for children. The knowledge and thought processes that I learned from Monteiro Lobato’s stories have served me in many situations at the school and in social and professional life.   Some of my professors, bosses and professional colleagues have aligned with my preference for “solution engineering”. But most probably fit among the ‘standard recipes’.

I remember that in the 1980s there was a dispute between ‘recipe’ adepts of # Just-in-Time and #MRP, two manufacturing management tools mistakenly seen as antagonistic at the time. Much time and energy was lost before most discovered that a good curation would combine the best of #JIT and of MRP for each company or situation.

The ‘dark side’ of the faith in recipes  is eternal and again goes on today between adepts of #Lean and of MRP.

I have aligned myself a lot with #OliverWight, an exceptional guru, able to do extensive curation of useful concepts and techniques, and combine them into recipes that facilitates deployment but are still flexible and open to fit different business realities.

Perhaps the best curation I have ever gotten professionally came from Jeanenne #LaMarsh, my guru for #Management. Also in this area there are gurus who can use a little term as an argumento to exclude all competitors so their particular recipe stands as the only correct one. Jeanenne, on the contrary, built an open methodology, to which he continually added what of best kept developing in the area.

I mentioned these curators of my past to show that, while the name was not yet used, the concept was already practiced, within the conditions of each time.

The so-called ‘content curation’ was characterized and became essential as the universe of accessible information exploded, with the internet and with the continuous connection obtained with smartphones.

As colleagues, students, and customers became saturated with second-by-second information, professionals who do not have an efficient curatorial process working on their behalf are at serious risk of being in disadvantage.

It has become a critical success factor to choose good mechanisms for identification, filtering and communication of information, relevant to the area of ​​action chosen by each one – information curation.

It may feel like science fiction but no, the future is already here with us!